Sunday, January 17, 2010

Tese em dez cantos, ao estilo Lusíadas




As fases e os espectros analisados
Que da acidental alma FCULiana
Por caminhos nunca dantes experimentados
Me levaram para além da mediana
Em dias e noites esforçados
Mais do que prometia a raça humana
E num pântano ardiloso edifiquei
Novo estilo, por que tanto lutei

E também a inteligência gloriosa
Que este algarvio foi dilatando
Apesar de orientadora odiosa
Que sempre que podia o ia lixando
Chega ao fim com obra valerosa
E do jugo tenaz se vai libertando
Cantando defenderei a minha parte
Se a tanto me ajudar o engenho e a arte

E com esta me despeço até ao meu regresso

Friday, January 15, 2010

O condomínio dos infernos





Olá caros leitores, como estão? Benzinho? Pois eu cá estou muito bem-disposto. Acabei de ter a minha reunião de condomínio e descobri os podres que se escondem por trás das portas envernizadas dos apartamentos deste prédio de bem.

Há três anos e meio, na altura de comprar a casa, ao falar ocasionalmente com um dos meus vizinhos, senhor já entradote e muito simpático, ele descreveu-me o ambiente como: «aqui mora gente com formação e educação [juizes, professores, médicos], a maior parte já idosa, tudo muito sossegado» - tudo muito bem, pareceu-me o prédio ideal, o apartamento estava em bom estado e com uma vista de perder a cabeça - esta análise da vizinhança era a cereja em cima do bolo.

Chegamos ao dia de hoje com muito para contar.
Já sabíamos que o segundo andar era ocupado por população asiática (de um país cujo nome não vou revelar para não fazer discriminação, mas cujo nome rima com "vagina") e que servia de cantina comunitária à população dessa nacionalidade que habita na área. Tudo bem, a mim não me afecta. Há uns tempos assaltaram-lhes a casa e levaram um cofre inteiro (!) cheio de dinheiro... OK.
Entretanto o apartamento por baixo do meu foi alugado a pessoas de um país cujo nome não revelarei para não parecer racista, mas que rima com "pernil" que abriram uma discoteca / tasca. Era samba e bebedeiras constantes, várias vezes fui lá bater à porta a pedir encarecidamente o favor de fecharem a matraca para me deixarem descansar. Finalmente saíram há coisa de um ano, devolvendo-me o descanso merecido.
Quem veio para substituir não melhorou muito o panorama. Acusações foram plantadas sobre a actividade profissional da suposta "senhora divorciada com uma criança de 8 anos". Não vou revelar exactamente qual foi a acusação por razões de privacidade, mas posso dizer que afirmam que a senhora é uma coisa que rima com "labuta". Sem falar no corrupio de cavalheiros que lá irão fazer-lhe "visitas sociais".
A cereja em cima do bolo vem do segundo núcleo de população asiática daqui do prédio, que é proprietário de uma loja de produtos asiáticos low cost. Há uns tempos, o dono foi atacado de madrugada por dois individuos armados com pistolas para lhe sacarem o dinheiro que supostamente teria acabado de ganhar no Casino Estoril. Houve tiros e tudo e o senhor levou uma carga de porrada de caixão à cova. O problema? O dinheiro não veio do Casino Estoril. Veio do casino clandestino instalado no seu próprio apartamento. Ops! Com roletas e tudo! Ops! E pessoas a beber whisky e a fumar charutos na varanda de madrugada! Ops! Mas o dinheiro veio do Casino Estoril, claro...

Anseio pela reunião do próximo ano em que se revelará que o meu vizinho do lado tem uma destilaria ilegal e a simpática velhota do último andar cultiva cannabis nos seus inúmeros vasos ao mesmo tempo que alberga uma casa de chuto.

E com esta me despeço até ao meu regresso. Se não regressar é porque apanhei uma facada de um chulo ou de alguém a quem ganhei todas as economias da sua vida na roleta.

Friday, January 8, 2010

State of the thesis address

Olá caros leitores
Antes de mais, um bom período de 365 dias para todos, espero que consigam realizar aquilo a que se propuseram. Se não o conseguirem, ao menos que não vos chateiem muito a cabeça enquanto esperam por alturas melhores, são os meus sinceros desejos.

Falando em acabar coisas a que me propus, falemos da minha tese (o propósito deste blog, afinal).
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Pensando bem, vou deixar que este vídeo fale por mim, penso que resume bastante bem o estado actual da mesma: caótica, feia,, intensa e também só me apetece andar a gritar e foder esta merda toda.

E com esta me despeço até ao meu regresso.

Nirvana
Endless, Nameless
Nevermind LP (1991)

Sunday, December 20, 2009

Goddammit I love the internet

Desde há várias décadas que a indústria discográfica se presta a grandes esforços para obter o desejado primeiro lugar do top de singles no Reino Unido na semana do Natal. Dado que é a semana em que a maior parte das pessoas andam às compras, é normalmente a semana em que mais música é vendida, e o "vencedor" normalmente aproveita esse facto para se promover.
Onde antes havia bandas de valor a ocuparem a primeira posição dos tops (Beatles por quatro vezes, os Queen com o "Bohemian Rhapsody" duas vezes, p.e.), ultimamente o privilégio vinha calhando a bandas como as Spice Girls, Girls Aloud ou aos vencedores do concurso britânico estilo «Ídolos», The X-Factor. Normalmente canções mais sentimentais ou feitas de encomenda para a época do Natal. Ou traduzido, uma bela merda.

Este ano alguém no Facebook decidiu que estava farto dessa bosta que invadia as ondas hertzianas, e fundou um grupo com a intenção de promover um tema de uma conhecida banda com raízes políticas e forte história de activismo para ocupar o primeiro lugar dos tops esta semana, e tirar o protagonismo ao último vencedor do X-Factor (Joe McElderry) e à sua canção pré-embalada e pronta a consumir (uma versão de um tema da Miley Cyrus, for fuck's sake). Ao contrário do que seria de esperar, este grupo registou uma adesão em massa, tendo sido objecto de notícia na imprensa de terras de sua Majestade (tabloides e não só). O tema prima pela controvérsia: para além de 16 "fucks" e um "motherfucker" bem enfiados lá no meio, apela à rebelião e ao não-conformismo.

Até ao fim a cômpita foi dura. Se a meio da semana Joe McElderry estava em segundo lugar a cerca de 10000 cópias de distancia do primeiro lugar, ontem de manhã a situação revertia-se, tendo sido animada a luta até ao fim. A banda em questão até se voltou a reunir para promover esta iniciativa e prometeu aos fãs um concerto gratuito ao ar livre em 2010 no Reino Unido se conseguissem vencer, bem como doar a maior parte dos lucros das vendas desta semana para a Shelter, associação de benificência que apoia os sem abrigo.

Mas no final, quem é que ganhou, com cerca de 500000 unidades vendidas (mp3), com uma vantagem de 50000 unidades sobre o segundo lugar e aprox. 440000 sobre o terceiro lugar (Lady Gaga)??


Rage Against the Machine
Killing In The Name
Rage Against the Machine LP (1992)


É por estas e por outras que ainda tenho esperança no mundo. Quase que me vinham lágrimas aos olhos :D Não há nada que um grupo unido não consiga fazer, mesmo em face de probabilidades muito reduzidas.

Para o ano, vou torcer para que ganhe o "Scum" dos Napalm Death ou o "Entrails Ripped through a Virgin's Cunt" dos Cannibal Corpse. Tudo é possível!

E com esta me despeço até ao meu regresso.

Monday, December 14, 2009

Eu, um elevador, mais 8 pessoas e 50 minutos de qualidade




Pode-se resumir assim o meu final de tarde, a olhar quer para uma parede, quer para os meus colegas de infortúnio.

Preâmbulo:

Após um lanche no bar com mais 5 colegas, dirigimo-nos para o ascensor da fiável marca alemã ThyssenKrups, onde se encontravam já 3 outras pessoas desejando subir para os seus laboratórios como anjos subindo aos céus com saudades de casa...

9 pessoas.

Um singelo autocolante na parede do elevador indicava o quanto poderia ser içado aos céus em segurança: 630 kilos, 8 pessoas... Éramos 9, que mal poderia advir dali?

A última pessoa posou seu chanato no elevador... Não apitou. Óptimo. As portas exterior e interior fecharam-se e o esforçado teutónico mete-se em marcha. Ah, mas não por muito tempo.
Qual BMW ou Mercedes novo em folha que não consegue acabar de subir a Pimenteira na A5, eis que o nosso cubiculo de metal fica a meio da parede entre o 1º e o 2º piso.

Filho. da. puta.

Descrição dos acontecimentos

Pensei eu para os meus botões, enquanto o alarme do peso começa a tinitroar pelos nossos ouvidos adentro. Ai agora é que te dá para soar, meu energúmeno?? Ainda continuaria durante mais 45 minutos, para mal dos nossos tímpanos colectivos.

Tentativas de reiniciar o sistema revelaram-se infrutiferas. Telemóveis afectos àquela rede que tem 7 milhões de utilizadores perderam o sinal mais depressa do que o Sporting perde jogos. E eu dei-me a invejar a sorte das sardinhas em lata, tão cheias de espaço no seu caixão de alumínio quando comparado com a situação perante mim. Quase que nem tinha espaço para coçar uma gónada...

Mas eis que, passados 5 minutos, chegam boas novas do mundo exterior! A segurança está a chegar, e eles accionarão o mecanismo manual para nos fazer descer em segurança. Foguetes eram lançados por todo o Portugal! Sentimos alguns abanões no elevador em si, mas fora isso... nada.

Um telefonema de uma colega que tivera a sorte de não ter fome alerta-nos para o pior: a segurança não sabe da chave da casa das máquinas... estão a tentar arrombar a porta, mas ela é de aço. O calor começa a aumentar dentro do nosso cubiculo onde 9 almas tentam desesperadamente agarrar à vida.

O momento eu-sou-um-heroi-como-o-Bruce-Willis-querem-me-ver-a-escapar-pela-parte de-cima-do-elevador-e-a-salvar-vos-a-todos foi imediatamente posto de parte, pois o tecto do elevador é de cimento. Sinceramente, quem é que se lembra disto?? Um trolha, não?

Já se passaram 20 minutos. Do exterior, abrem uma das portas para ajudar à ventilação. Ouvem-se os primeiros roncos de fome e sede, e alguns dos meus colegas de infortúnio começam a vislumbrar-se apetitosos. O calor que continua a aumentar não ajuda em nada, aumentando o grau de cozedura.

Começa o delírio:
Oferecem sandes do exterior
«Obrigado, mas por aqui só passa uma pizza!»
E mais:
«Eu queria ver se ainda via o Benfica-Porto»
«Vamos lá a despachar que eu tenho uma tese para escreveeeeeeeeeeeeeeeeeer!»
«Socorro, tou aqui preso com dois espanhóis! Eles querem me conquistar outra vez!»
«Oh moçe marafade, diz lá aos seguranças para despacharem essa merda»
«Então, tá fresquinho e tal! / É verdade, nunca mais chega o tempo quente»

Após 40 minutos de tortura e com uma peça de roupa a menos e uma dentada afinfada na própria mão, pedem-nos para fechar a porta interior - aparentemente tinham conseguido arrombar a porta da casa das máquinas!!! Qual porteiro de discoteca da moda solícito, fecho-a com estrondo. E esperamos. E esperamos. E nada.

Ai que ficamos aqui! E eu sou tão jovem e bonito!

Enquanto compilava um testamento mental deixando todos os meus bens à Sociedade Protectora dos Doutorandos e pensando no telefonema de despedida que iria fazer à minha mulher e amigos mais chegados, eis que...

Ele mexe! Ele está vivo!

15 segundos depois, eis-nos chegados à segurança de terra firme. Qual arcanjo Gabriel anunciando uma boa nova, um segurança abre-nos a porta para um admirável mundo novo, cheio de luz, cor e espaço!

Gritei «Meu rico Portugal, que eu não pensava mais voltar a ver-te!» enquanto me prostrava e beijava o chão... minha rica tijoleira nacional!

Conclusão:

Fugi para casa a galope, qual cavalo selvagem solto da rédea de seu tirano dono... e aqui estou a relatar-vos a minha história. Dizem que andar de escadas faz bem ao coração. Daqui por uns meses vos direi se sinto diferenças nas minhas ondas sinusoidais.

E com esta me despeço até ao meu regresso.

Thursday, December 10, 2009

Peer Review

Um problema premente e antigo, transversal a todas as franjas da sociedade. Isto relembra-me a luta que foi para submeter um paper no início deste ano, que tive que andar a correr a fazer experiências complexas de executar e analisar no prazo de 60 dias propostas por um referee... Devia ter aproveitado para lhe envenenar a sopa uns meses mais tarde quando o encontrei numa conferência.

E com esta me despeço até ao meu regresso



Saturday, December 5, 2009

Eh puta de semana... e só teve 3 dias + Jukebox 25

Estranha semana esta. Não vos vou maçar com pormenores, mas entre outras coisas tive direito ao carro que eu estava a usar (emprestado pela minha mãe) ter uma fuga no depósito e parar a meio do caminho entre o ginásio e a minha casa... numa subida. Onde decidiu-se a vazar a pouca gasolina que lhe restava no depósito. Tenho que agradecer aos dois dreads que me ajudaram a empurrá-lo para uma zona de segurança, enquanto soltavam pérolas do género «Ó sócio, é falta de gota? Também já me aconteceu» ou «Eeeeh mano, fodeste o carro todo!». Obrigado na mesma, manos. Sem vocês não teria conseguido.

Também tive direito à "trilogia da morte" um destes dias - descobri que alguém que trabalhava no laboratório à frente do meu /numa reputada instituição cientifica da linha de Cascais onde dei os meus primeiros passos nesta vida, de onde saí há 5 anos e onde regressei esta semana pela primeira vez desde que de lá saí) e com quem contactei várias vezes morreu há poucos meses de cancro, deixando filhos pequenos... pouco depois, ao regressar a casa, deparo-me com o cenário de um suícidio na linha do comboio... é sempre tétrico, ver um carro parado no meio da estrada sem estar acidentado... rodeado de ambulâncias e carros-patrulha... e uma maca coberta por um pano branco a ser retirada da linha do comboio... E pouco mais à frente, para completar o cenário perturbador, um felino morto na estrada, em todo o seu rigor gráfico - algo que normalmente não me faria pensar duas vezes, mas condicionado como já vinha... Doença fatal, suicídio, acidente, tudo no espaço de aprox. 2 horas. Deu-me muito em que pensar, na fragilidade da vida e no que se pode fazer enquanto cá estamos, porque o futuro não é garantido. De forma alguma.

Para "aliviar" um pouco o ambiente, deixo-vos um tema que estava dormente no meu cérebro há muitos anos e esta manhã, ao acordar, decidiu fazer uma visita ao córtex frontal e instalar-se lá. Todos se poderão rever no seu simples, mas eficaz, refrão (quer dizer, se se tratar de uma mulher heterossexual, convém trocar o "she" por um "he" - de resto mantem-se o que disse).

E com esta me despeço até ao meu regresso. Espero que com boas novas.


Black Rebel Motorcycle Club
Love Burns
Black Rebel Motorcycle Club LP (2000)

Friday, November 27, 2009

Jukebox 24

Um dos meus temas favoritos de sempre, desde que o ouvi pela primeira vez. A letra fala sobre putas na cama, à porta, na cabeça, e a fazer um coro, mas ainda assim parece-me uma bela canção de amor.
À maneira dos Pixies, claro. Mas a maioria da audiência parece concordar comigo.
E com esta me despeço até ao meu regresso.

Pixies
Hey
Doolittle LP (1989) - aqui, ao vivo no Eurockennes Festival, Belfort, França, 2004.

Thursday, November 26, 2009

Mensagens a pressionar colegas a vir almoçar

Sai daqui e pára de me dar bicadas ó filho duma abutra!


Hoje encontro-me pacientemente à espera que uns colegas ["colegas são as putas!", diria o meu amigo Pedro] acabem de fazer umas experiências para irem almoçar. Como o atraso já vai longo (já deviam estar despachados há uma hora, ou mais), tenho-me entretido a mandar mensagens para os seus telemóveis a dar conta da crescente situação de desespero que o meu estômago se encontra a atravessar:

"Tou com fome comó caralho, vocês despacham-se com essa merda?"
"Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaargh, fooooooooooooooooooooooooooooooooome!"
"O papel A4 80g/m2 da Navigator parece-me delicioso"
"Acho que vou comer um braço. O esquerdo, se calhar, deve fazer-me menos falta..."
"A S. [outra colega] foi buscar uma faca para fatiar as nalgas, diz que tem mais chichinha"
"Eu acho que hoje até túbaros marchavam. Ou queijo chulezento à fatia. E vocês sabem o que eu detesto queijo, seus cabrões!"
"Despachem-se que até a S. já está magra de tanto esperar"

Mais haverá, se entretanto não desmaiar para aqui de fome...

Tuesday, November 24, 2009

Parabéns ao meu amigo mestre-de-obras / ortopedista

Não me venham com merdas que isto é material de ortopedia, eu tenho tudo isto na minha caixa de ferramentas


João, agora que escolheste a bela especialidade de ortopedia e vais passar o dia a trabalhar com estuque, martelos, serrotes e parafusos, deixa-me dar-te os parabéns e esperar que tudo corra pelo melhor. Aproveito para dizer que tenho uma perna de uma cadeira rachada e muita humidade no tecto falso, vou precisar da tua ajuda eventualmente...

E com esta me despeço até ao eu regresso.