
Pode-se resumir assim o meu final de tarde, a olhar quer para uma parede, quer para os meus colegas de infortúnio.
Preâmbulo:
Após um lanche no bar com mais 5 colegas, dirigimo-nos para o ascensor da fiável marca alemã ThyssenKrups, onde se encontravam já 3 outras pessoas desejando subir para os seus laboratórios como anjos subindo aos céus com saudades de casa...
9 pessoas.
Um singelo autocolante na parede do elevador indicava o quanto poderia ser içado aos céus em segurança: 630 kilos, 8 pessoas... Éramos 9, que mal poderia advir dali?
A última pessoa posou seu chanato no elevador... Não apitou. Óptimo. As portas exterior e interior fecharam-se e o esforçado teutónico mete-se em marcha. Ah, mas não por muito tempo.
Qual BMW ou Mercedes novo em folha que não consegue acabar de subir a Pimenteira na A5, eis que o nosso cubiculo de metal fica a meio da parede entre o 1º e o 2º piso.
Filho. da. puta.
Descrição dos acontecimentos
Pensei eu para os meus botões, enquanto o alarme do peso começa a tinitroar pelos nossos ouvidos adentro. Ai agora é que te dá para soar, meu energúmeno?? Ainda continuaria durante mais 45 minutos, para mal dos nossos tímpanos colectivos.
Tentativas de reiniciar o sistema revelaram-se infrutiferas. Telemóveis afectos àquela rede que tem 7 milhões de utilizadores perderam o sinal mais depressa do que o Sporting perde jogos. E eu dei-me a invejar a sorte das sardinhas em lata, tão cheias de espaço no seu caixão de alumínio quando comparado com a situação perante mim. Quase que nem tinha espaço para coçar uma gónada...
Mas eis que, passados 5 minutos, chegam boas novas do mundo exterior! A segurança está a chegar, e eles accionarão o mecanismo manual para nos fazer descer em segurança. Foguetes eram lançados por todo o Portugal! Sentimos alguns abanões no elevador em si, mas fora isso... nada.
Um telefonema de uma colega que tivera a sorte de não ter fome alerta-nos para o pior: a segurança não sabe da chave da casa das máquinas... estão a tentar arrombar a porta, mas ela é de aço. O calor começa a aumentar dentro do nosso cubiculo onde 9 almas tentam desesperadamente agarrar à vida.
O momento eu-sou-um-heroi-como-o-Bruce-Willis-querem-me-ver-a-escapar-pela-parte de-cima-do-elevador-e-a-salvar-vos-a-todos foi imediatamente posto de parte, pois o tecto do elevador é de cimento. Sinceramente, quem é que se lembra disto?? Um trolha, não?
Já se passaram 20 minutos. Do exterior, abrem uma das portas para ajudar à ventilação. Ouvem-se os primeiros roncos de fome e sede, e alguns dos meus colegas de infortúnio começam a vislumbrar-se apetitosos. O calor que continua a aumentar não ajuda em nada, aumentando o grau de cozedura.
Começa o delírio:
Oferecem sandes do exterior
«Obrigado, mas por aqui só passa uma pizza!»
E mais:
«Eu queria ver se ainda via o Benfica-Porto»
«Vamos lá a despachar que eu tenho uma tese para escreveeeeeeeeeeeeeeeeeer!»
«Socorro, tou aqui preso com dois espanhóis! Eles querem me conquistar outra vez!»
«Oh moçe marafade, diz lá aos seguranças para despacharem essa merda»
«Então, tá fresquinho e tal! / É verdade, nunca mais chega o tempo quente»
Após 40 minutos de tortura e com uma peça de roupa a menos e uma dentada afinfada na própria mão, pedem-nos para fechar a porta interior - aparentemente tinham conseguido arrombar a porta da casa das máquinas!!! Qual porteiro de discoteca da moda solícito, fecho-a com estrondo. E esperamos. E esperamos. E nada.
Ai que ficamos aqui! E eu sou tão jovem e bonito!
Enquanto compilava um testamento mental deixando todos os meus bens à Sociedade Protectora dos Doutorandos e pensando no telefonema de despedida que iria fazer à minha mulher e amigos mais chegados, eis que...
Ele mexe! Ele está vivo!
15 segundos depois, eis-nos chegados à segurança de terra firme. Qual arcanjo Gabriel anunciando uma boa nova, um segurança abre-nos a porta para um admirável mundo novo, cheio de luz, cor e espaço!
Gritei «Meu rico Portugal, que eu não pensava mais voltar a ver-te!» enquanto me prostrava e beijava o chão... minha rica tijoleira nacional!
Conclusão:
Fugi para casa a galope, qual cavalo selvagem solto da rédea de seu tirano dono... e aqui estou a relatar-vos a minha história. Dizem que andar de escadas faz bem ao coração. Daqui por uns meses vos direi se sinto diferenças nas minhas ondas sinusoidais.
E com esta me despeço até ao meu regresso.